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Falta de talento em IT… ou excesso de hype?

Mariana Delgado defende que o sector das tecnologias cresce, o talento em IT existe e a procura continua a aumentar. E questiona porque é que se continua a falar de escassez.

Durante anos, repetimos quase automaticamente que existe uma “falta de talento” em IT. A frase tornou-se tão comum que raramente a questionamos. Mas quando olhamos para os dados, a realidade é mais interessante e mais desconfortável.

O emprego tecnológico tem crescido de forma consistente. Segundo os dados do Eurostat, na União Europeia, o número de especialistas em IT aumentou mais de 60% na última década, representando hoje cerca de 5% do total do emprego. Em Portugal, esta evolução é ainda mais evidente: os profissionais deste setor passaram de cerca de 3,6% em 2019 para mais de 5% em 2024. Além disso, mais de 1 em cada 5 empresas portuguesas já emprega especialistas em IT, muito para lá do universo das empresas puramente tecnológicas.

Ou seja: o setor cresce, o talento existe e a procura continua a aumentar.

Então porque continuamos a falar de escassez?

O mais recente IT Global HR Trends 2025, publicado pela Qibit (Gi Group Holding) ajuda a explicar o paradoxo. Apesar do crescimento sustentado do setor, 39% das empresas continuam a referir dificuldades em encontrar talento, sobretudo em áreas como IA, Cloud, Data ou Cibersegurança. Mas o estudo mostra também algo decisivo: os profissionais estão mais exigentes, mais informados e menos disponíveis para propostas pouco estruturadas.

O hype do IT, alimentado pela urgência da transformação digital e pela corrida às novas tecnologias, criou expectativas pouco realistas. Procuram-se perfis altamente especializados, com múltiplas competências, disponíveis “para ontem”, muitas vezes sem uma proposta de valor clara, processos ágeis ou uma estratégia de desenvolvimento consistente.

Chamamos a isto falta de talento. Mas, na prática, estamos muitas vezes perante falta de estratégia.

Os dados do estudo mostram que fatores como remuneração competitiva, flexibilidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e progressão de carreira são hoje determinantes para os profissionais de IT. Ainda assim, muitas organizações continuam focadas apenas no preenchimento rápido de vagas, em vez de pensarem o talento de forma estrutural e a médio prazo.

A verdade é simples: as empresas que menos falam de “falta de talento” tendem a ser as que melhor o atraem. Não porque o mercado seja diferente para elas, mas porque investem em planeamento, processos claros e propostas alinhadas com a realidade do setor.

O desafio do IT em Portugal não é negar o crescimento nem ignorar a competitividade. É ir beyond the hype e aceitar que o problema já não está apenas no mercado, está nas decisões que tomamos.

Talvez esteja na altura de trocar a pergunta.  Em vez de “porque é que não encontramos talento?”, perguntar: “o que estamos a fazer para que o talento nos queira escolher?”

Enquanto não o fizermos, continuaremos a confundir escassez com estratégia, e a chamar hype de realidade.

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